domingo, 19 de fevereiro de 2012

Toada calada

Agarrado à força
o poema
no beco
a becas fechadas
se ata
baques abafam
a língua do poema
a cedilha pronta
a cedilha exposta
agarrada à forca
canta
calada
a toada


(em lembrança do poeta Mário Chamie)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

No quarto crescente do olhar


Onde agora o olho
Aberto àquele, claro sonho,
Rosa que se aflora
À revelia desta arbórea
Face que se caça
Na luz que mira a caça,
Olho que desaloja o outro?

Quem me olha quando a mansa
Cor dos seus olhos avança
A rubra face de meu corpo?

para r.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Caminho percorrido


Ontem eu apenas procurava um endereço antigo em meio a umas cartas também antigas e encontrei o que não buscava. Um eu-mesma que ainda resta em mim nas cartas de um tempo em que a vida se abria como um presente no seu laço enorme de fita azul e papel de seda. Ver-se assim refletida no espelho do tempo me faz pensar no acúmulo de imagens  que têm se sobreposto no caminho percorrido, nos inúmeros laços de fita que desatei e de outros que apertei insuportavelmente. Ainda bem que essa que encontrei nas cartas ainda sobrevive entre os escombros do tempo. É ela que me dá vida nesta vida de tantos desencontros. 

Um dia escrevo essa escrita de laços e de nós. Porque há nós, um eu e você, no desatar e atar de estradas a céu aberto e coração partido.

Foi ele, meu pai, que ensinou esta gaivota
 a escrever com as asas na areia do tempo.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um caso de amor


Para esta São Paulo de 458 anos,
 a cidade das minhas eternas paixões.

Asfalto fuga e fumaça
Suas trilhas nefastas
Perseguem as minhas
Na prega da saia
No beijo do vento
Na flor descoberta
Vermelha no centro.

Cidade de azuis clandestinos
Couraça de pó e cimento
Me abraça como um noivo
E me lança viadutos adentro.

Me entontece nas curvas
Me sussurra nos trilhos
Encruzilhadas de amor eterno.

É assim que te quero
Na volúpia pneumática das esquinas
Inteira como as avenidas
Da minha Paulista humana loucura.

domingo, 22 de janeiro de 2012

noite nefasta

noite nefasta
ninfas em festa
e um fauno em fuga

Fauno, de Victor Brecheret (dec. 20)
Original na concepção, esta gaivota não conseguiu
deixar de se encantar com a forma arredondada 
colhida na pedra

sábado, 21 de janeiro de 2012

A duas vozes

Meu teclado tem asas.
Te quero preto no branco
lá onde o sol
sustenido
grita um bemol
a menos.

Chagall, Os amantes voadores

Canto de sereia



teu recife me dispara
arrecifes mar adentro